O indivíduo em liberdade
Marieta Lúcia Machado Nicolau*

A formação e as idéias de Maria Montessori, educadora italiana que rompeu barreiras no século 19 e lançou luzes ao caminho da pedagogia moderna

 

Em A educação pré-escolar: fundamentos e didática, ressaltei a importância de considerar, no exame da vida, do pensamento e das obras dos educadores, o tempo e o espaço em que viveram, bem como as influências que exerceram até os nossos dias.

É nessa perspectiva que inicio minhas reflexões sobre o trabalho de Maria Montessori. A educadora nasceu na cidade italiana de Chiaravalle, em 31 de agosto de 1870. Muitas das informações sobre sua infância parecem incertas em relação às datas; há contradições e omissões nos diferentes autores consultados.

Seu pai, Alessandro Montessori, apresentava um temperamento conservador e hábitos militares. Sua mãe, Renilde Stoppani, muito bem educada, amava ler. Isso era um fato inusitado; na cidade em que viviam era um motivo de orgulho saber escrever o nome. Renilde Stoppani era muito patriota, devota aos ideais de libertação e à união da Itália.

O casal Montessori teve Maria um ano após estar casado. A menina era considerada autoconfiante, otimista e muito interessada em mudanças. Argumentava com seus pais, fato não usual. Apresentava muita facilidade para aprender e tinha bons resultados nos exames.

Graduou-se em escola técnica em 1886. Obteve altos scores. Estudou línguas modernas e ciências naturais. Matemática era a sua área favorita. Decidiu-se pelas ciências biológicas. Seu pai desaprovou sua escolha, já que era impossível a uma mulher ser aceita na escola de medicina.

Em 1892, passou nos exames que a tornaram elegível a estudar Medicina. Aos poucos, foi sendo aceita pelos colegas. Ela e o pai quase não se falavam, pelo fato de ela estar estudando Medicina. Sua mãe a apoiava.

Em 1896, ela apresentou a sua tese para dez homens. Ficaram impressionados com o trabalho, e ela obteve o grau de doutor em Medicina. Além de ser a primeira mulher a se graduar em Medicina, foi considerada brilhante.

Rita Kramer, ao documentar a vida de Montessori, refere-se ao fato de que a educadora teve um filho, chamado Mario, com um colega, dr. Montesano. Não há clareza sobre o motivo de não terem se casado. Aparentemente, sua família e ela própria opuseram-se ao casamento.

Kramer teve a oportunidade de falar com Mario e obteve a informação de que ele foi enviado a uma wet nurse após o nascimento; ele entendeu que foi um plano dos pais para manter seu nascimento em segredo. Mario foi criado por uma família em Roma, e sua mãe o visitava. Maria e o dr. Montesano decidiram de comum acordo não se casar. Mario, por sua vez, casou-se e teve quatro filhos: Marilena, Mario Filho, Renilde e Rolando.

Pensadora italiana iniciou sua trajetória trabalhando com deficientes mentais e teve papel fundamental nas reformas educacionais do século 20

Foi durante o período do doutorado de Montessori, em Medicina, na Universidade de Roma, no início do século 20, que ela veio a se inteirar sobre o trabalho de Edouard Séguin, que na época já era muito conhecido por suas idéias relacionadas ao tratamento e à educação dos anormais.

Durante 12 anos, Montessori trabalhou como professora auxiliar na Clínica de Psiquiatria da Universidade de Roma. No manicômio, teve a tarefa de escolher os doentes que seriam submetidos ao ensino clínico, tendo se interessado pelas crianças idiotas.

Nesse contexto, conheceu mais profundamente o método de educação especial idealizado por Edouard Séguin e teve a intuição de que a questão dos anormais era mais pedagógica do que médica. Além de Séguin, os trabalhos de Jean Itard muito influenciaram as idéias de Montessori. 

Em Deficiência mental: da superstição à ciência, Isaías Pessotti analisa a obra de Séguin e aponta que “o método do pesquisador parte da tese que os repertórios motores, verbais e intelectuais se constroem sobre o processo de evolução ontogenética (a partir dos aparelhos nervosos ou do sistema nervoso).

(...) Séguin propõe em sua obra uma variedade enorme de técnicas de ensino especiais, acompanhadas de inúmeros exemplos para aplicação com diferentes tipos e níveis de crianças deficientes e que abrangem as diversas áreas da vida do educando” (citado por Áurea Goulart em O projeto pedagógico de Maria Montessori).

Montessori aproveita essa proposta, na qual a seriação é fundamental, e postula que o domínio de uma tarefa deve ser cobrado quando todo o repertório perceptivo ou de operação exigido para sua execução tenha sido dominado pela criança. A propósito, um exemplo interessante de seriação é fornecido por Vera Lagoa (Estudo do sistema Montessori fundamentado na análise experimental do comportamento) ao focalizar a “análise dos movimentos”.

Para abrir, transpor e fechar uma porta é preciso executar sucessivamente os seguintes gestos: 1) colocar a mão na maçaneta; 2) girá-la; 3) puxar ou empurrar a porta; 4) soltar a maçaneta; 5) passar; 6) voltar-se; 7) recolocar a mão na maçaneta; 8) empurrar ou puxar a porta; 9) apoiar a maçaneta.

Mas Montessori, ao fazer a postulação da seriação, acaba possibilitando uma abertura para um posicionamento de condicionamento comportamental, muito mais do que o propusera Séguin. Em Los útiles de la infancia, André Michelet analisa o material de Montessori e o de Séguin e levanta a possibilidade de Montessori estar mais próxima de Itard do que de Séguin, “uma vez que o primeiro se fundamenta mais na filosofia sensualista, enquanto Séguin tem maior preocupação com as idéias a serem desenvolvidas do que com as noções alcançadas através dos sentidos”.

Ainda no período como professora auxiliar na Clínica de Psiquiatria da Universidade, Montessori continua em Roma suas experiências com os deficientes mentais e educa as crianças por dois anos, orientando-se pelas propostas contidas no livro de Séguin e pelas experiências de Itard, ambas consideradas por ela como “um verdadeiro tesouro”. Nesse mesmo período, ela se dispõe a organizar e a orientar a confecção de materiais que, depois, vieram a fazer parte de seu método.

Em 1898, a educadora italiana teve a oportunidade de apresentar o seu método de educação moral no Congresso Pedagógico de Turim. Na ocasião, um seu ex-professor, Guido Baccelli, ministro da Instrução Pública à época, convida-a a proferir conferências sobre a educação de crianças deficientes. O convite foi aceito. Mas Montessori desejava ter um aprofundamento maior na pedagogia.

Matricula-se no curso de Filosofia e de Psicologia experimental na Universidade de Roma. Envolve-se também com um curso livre de Antropologia nessa mesma universidade e busca métodos em uso nas escolas primárias para crianças normais.

Em 1907, inaugura a primeira Casa dei Bambini (Casa das Crianças, como era chamado na Itália o local que ela concebera para a educação completa da criança, já que visava não somente a instrução, mas também a educação e vida), após ter sido convidada pelo engenheiro Eduardo Tálamo, diretor geral do Instituto Romano dos “Beni Stabili”, para que se encarregasse de escolas infantis.

A partir da análise dos movimentos, Montessori postula que o domínio de uma tarefa deve ser cobrado quando o repertório exigido para sua execução tenha sido dominado pela criança

A idéia genial de Tálamo consistia em recolher as crianças de 3 a 7 anos de numerosos inquilinos de um grande condomínio para que ficassem sob a orientação de uma professora que deveria morar no mesmo edifício.

Sobre a situação do conjunto residencial, afirma Montessori (em A criança) que “a condição particularíssima devia-se ao fato de não ser aquela instituição privada uma verdadeira obra social, visto ter sido fundada por uma companhia imobiliária que pretendia abater os gastos de manutenção da escola com despesas indiretas de conservação junto ao conjunto residencial. (...) As únicas despesas possíveis eram as habituais de um escritório, ou seja, móveis e utensílios suplementares. (...) Por isso, começou-se por fabricar móveis em vez de se adquirir bancos escolares (...) fabricou-se uma mobília sob medida, como se fossem móveis de uma casa ou de um escritório. Simultaneamente, mandei fabricar um material exatamente como o que já utilizara numa instituição para crianças deficientes e que ninguém imaginava que pudesse ser transformado em material escolar”.

Assim, a primeira Casa das Crianças foi destinada a crianças pobres de 3-7 anos, que permaneciam praticamente abandonadas em função da necessidade de os pais trabalharem. Essas crianças mostravam-se “choronas, medrosas, tão tímidas que não se conseguia fazê-las falar, rostos inexpressivos, olhar espantado, como se nunca tivessem visto nada na vida. Eram, com efeito, pobres crianças abandonadas, crescidas em casas miseráveis e escuras, sem um estímulo psíquico, sem qualquer cuidado.

Pareciam mal nutridas aos olhos de todos e não era preciso ser médico para perceber que tinham necessidade urgente de alimentação, de vida ao ar livre e de sol. Flores fechadas, mas sem a frescura dos botões - espíritos encerrados em invólucros fechados”, como afirma Montessori.

As casas “dei Bambini” vão sendo criadas. Em 1908, surge outra casa, para a burguesia. Em 1909, Montessori publica suas experiências na obra Pedagogia científica, disseminando suas idéias pelo mundo. Em 1913 e 1914, são ministrados os Cursos Internacionais Montessorianos, o que contribui muito para divulgar as idéias das referidas escolas. Em 1916, Helen Parkhurst inicia um curso para preparação de professores nos Estados Unidos. Após a Primeira Guerra Mundial, o método atinge a Europa, a América e a Ásia. Com o fascismo, Montessori fixa residência na Holanda.

A Segunda Guerra fez com que a educadora italiana mudasse para a Índia, onde permaneceu até 1946. Em seguida, retorna à Holanda, continua realizando cursos e palestras por toda a Europa, até 1952, ano de seu falecimento.

Após a Segunda Guerra, a sociedade capitalista procura novas formas de se recompor, e a obra de Maria Montessori sustenta essa possibilidade de reforma educacional e social, fundamentando-se no estudo científico do homem do ponto de vista biológico, psíquico, fisiológico. A sociedade seria reconstruída pela educação, a partir do respeito à formação espiritual e à elevação intelectual da humanidade visando a adaptação ao novo mundo.

As escolas montessorianas disseminaram-se por Inglaterra, Escócia, Hungria, Tchecoslováquia, Romênia, Bulgária, Grécia, Palestina, Filipinas, Austrália, Rússia, México, Canadá, Cuba, Colômbia, Panamá, Bolívia, Equador, Venezuela, Chile, Paraguai, Argentina e Brasil.

 


Escola montessoriana em Berlim

O método Montessori no Brasil encontra nos teóricos um “clima” propício pelo fato de acharem que a escola da época estava superada. Tanto que o dr. Miguel Calmon du Pin e Almeida faz, na Bahia, uma palestra em 1915 sobre as promessas e os resultados da pedagogia moderna. Em 1924, ele recebe a permissão de Montessori para a publicação de Pedagogia científica.

Educadores renomados lutam pela escola ativa (Ferrière, Decroly, Dewey, Claparède, entre outros), e Montessori concorda com suas idéias. Como lembra Angela Médici, no contexto da Escola Nova, Maria Montessori ocupa papel de destaque pelas novas técnicas introduzidas nos jardins da infância e nas primeiras séries do ensino formal. As idéias desses educadores, defendidas por Montessori, são difundidas, inicialmente na Bahia, em Minas Gerais, São Paulo e Paraná.

O método Montessori é muito utilizado, mas freqüentemente acoplado a outras tendências teóricas. Seus materiais são bastante empregados até hoje. O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (redigido em 1932 por Fernando de Azevedo) significa muito para a educação brasileira porque indicou a insatisfação com a educação reinante, bem como aspirações para a sua melhoria.

Referindo-se a Demerval Saviani, Áurea Goulart afirma que “a Igreja Católica, ao entrar em polêmica com os Pioneiros da Educação Nova, acaba por incentivar a adoção do método Montessori-Lubienska pelas escolas particulares, em função da ampliação do número de adeptos à escola nova. Um indicador dessa predominância é o fato de que a própria educação católica busca renovar-se e, de certa forma, atender aos requisitos de influência do Escolanovismo. 

É nesse sentido que em 1955, 1956 e 1957, a Igreja organiza as Semanas da Educação, traz o padre Pierre Faure, da França, que divulga as idéias de Lubienska associadas às de Montessori. (...) A ênfase principal em Lubienska se explica pela sua maior compatibilidade com a doutrina da Igreja (ela tinha um pensamento místico com influência oriental e litúrgica, baseava-se na Bíblia, aplicava os processos litúrgicos na educação das crianças). Apoiada nessa pedagogia, a Igreja de certa forma busca se atualizar e incorporar no aspecto metodológico algumas conquistas da Escola Nova, sem obviamente abrir mão da doutrina”.

Montessori afirma o caos existente na sociedade após as duas guerras e aborda a má distribuição das riquezas. É adepta de um movimento de libertação universal, com base científica e ligada à educação. Defende o desenvolvimento natural da criança. Para que a personalidade se desenvolva de maneira independente, necessário se torna libertar as crianças das atitudes autoritárias dos adultos que tolhem a liberdade. Refere-se ao nascimento espiritual do homem, ao respeito à individualidade, amparada por um ambiente vital. Endossa uma educação de dentro para fora, reunindo “todos os seus valores vitais, suas energias, crescendo e preparando-se para sua libertação” (A formação do homem).

A obra de Maria Montessori se difundiu rapidamente por todo o mundo e seus livros foram traduzidos para mais de 20 línguas. Ela destaca que a educação deve ocorrer desde o nascimento.

Os enfoques da educação para Montessori voltam-se para a biologia (embriologia e o estudo sobre as células). Vale lembrar que essas novas áreas do conhecimento privilegiavam as etapas iniciais da vida até atingir as formas adultas (ver Mente absorvente). Muitos são os aspectos ressaltados na educação da criança, pela educadora: movimento livre, a auto-atividade, autodomínio, ambiente adequado e o preparo do educador para que oriente a criança por meio de uma contínua atividade. Experimentar o ambiente é trabalhar.

Áurea Goulart, em O projeto pedagógico de Maria Montessori, esclarece a posição da educadora, que afirma caber ao mestre a criação de oportunidades para que as crianças se concentrem, envidando todo o esforço para que não haja interferência do educador ou interferência entre as crianças, de modo a garantir calma e atitude tranqüila.

Deve haver rigor com a técnica das lições, apresentada no período das iniciações e no das lições Os interesses e as necessidades das crianças dependem de períodos sensíveis que as levem a certas escolhas. Os materiais são meios de desenvolvimento.

A educadora italiana crê que o professor de uma sala montessoriana necessita de uma formação diferenciada, sendo guardião e responsável pelo ambiente e materiais existentes; deve apresentar-se bem e tratar a criança com delicadeza; deve se preocupar com o comportamento das crianças para que, gradativamente, estas consigam sentir-se bem na sala de aula; poesias, contos, rimas, exercícios variados contribuirão para esse bem-estar.

Posteriormente, o leque de interesses dos alunos se amplia. Os exercícios de vida prática devem ser os primeiros. E ainda: o mestre deve criar um ambiente em que os alunos se concentrem, evitando interferências suas ou dos colegas. A calma e atitude calma devem ser cultivadas. É preciso que, ao se colocar a criança em contato com o material, respeitem-se os dois períodos: o das iniciações e o da técnica das lições.

Nas iniciações, o material a ser apresentado deve ser isolado; o professor deve demonstrar como se usa o material, chamando a atenção da criança; se o uso que o aluno está fazendo do material é inadequado ou prejudicial a sua inteligência, deve impedir esse uso com delicadeza ou mesmo com severidade, se necessário, mas nunca de maneira que pareça punição; o controle do erro feito através do estímulo deve levar o aluno a refazer a atividade; a criança fica com o objeto o tempo que quiser, imitando o modelo ou encontrando outra forma de explorá-lo; a ordem é sempre preservada, a criança retorna o material ao seu lugar de origem.

No segundo período, o das lições, o mestre intervém para organizar melhor as idéias das crianças; leva-as a distinguir as diferenças, a aprender a nomenclatura exata para ser memorizada. Sugere a apresentação do nome associado a sua imagem. O mestre deve fazer perguntas bem formuladas ao aluno, evitando palavrório inútil. Montessori pretende livrar o aluno da imposição da imobilidade porque esta não ajuda a aprendizagem. Segundo Goulart, para a educadora italiana, “obrigar a criança a permanecer em silêncio e imóvel como condição para uma possível aprendizagem é nada mais que um dos muitos preconceitos encontrados na educação”.

Movimentar-se, controlar os gestos e os movimentos permitem que a criança se organize, discipline-se e normatize o seu comportamento. A educação sensorial ajuda o desenvolvimento natural da criança porque precede o desenvolvimento das capacidades intelectuais superiores. A autodisciplina é favorecida pelas atividades na linha. De acordo com Gersolina Avelar, “a linha constitui toda a fase disciplinar do processo educativo, tendo como objetivo o equilíbrio neuro-psico-muscular em consonância com seu ‘eu espiritual’”.

No método de Montessori, essa “aula de linha” faz parte da educação dos movimentos. Uma linha é desenhada no chão, e todas as crianças, sob a orientação do professor, são convidadas a participar. Talvez o que mais seja conhecido em Maria Montessori é a organização do conjunto de materiais para a educação dos sentidos, a educação dos movimentos, a formação da mente matemática, a alfabetização e a leitura de modo a contribuir para a normatização do comportamento.

Vários são os cuidados prescritos na utilização do material montessoriano: na sala deve haver apenas um exemplar de cada material; as dificuldades estabelecidas são graduadas cientificamente; a seqüência do material deve ser respeitada; a criança escolhe o material. A limitação de materiais tem um papel no desenvolvimento de habilidades como respeito, cooperação, solidariedade.

Montessori deu ênfase à fase dos 3 aos 6 anos de idade, período em que as principais funções - como por exemplo calma, tranqüilidade, autocontrole, domínio dos movimentos, acuidade auditiva, capacidade de concentração - vão se desenvolvendo. Vários objetos devem

 

estar à disposição da criança para livre exploração e para realização de atividades da vida cotidiana, do tipo: abotoar, dar laços, nós, usar panos para limpar o piso, vassouras, espanadores, escovas para limpar sapatos.

Esses materiais ficam em locais da sala, e as crianças são estimuladas a, por exemplo, organizar uma mesa, os meninos a fazer a barba (sem lâmina) e as meninas a se pintar com produtos colocados à disposição. Os materiais destinados à educação dos sentidos, em particular a educação do sentido do tato, têm como preocupação inicial a exploração das pontas dos dedos com placas áspero-lisas, com lixas e papéis; papéis diferentemente lisos e uniformes, desde papel passento até cartolina lisa. Assim, vários materiais são propostos. Com os tecidos, o trabalho deve ser feito de olhos vendados. Exercícios de classificação são propostos.

De maneira muito variada, são criadas situações para o desenvolvimento do sentido térmico, das impressões de peso, da impressão das formas só com apalpações em sacos fechados colocados com objetos diferentes, da educação dos sentidos gustativo e olfativo, da educação do sentido da audição, da visão.

Os materiais possuem uma seqüência: atividades de vida prática, materiais de desenvolvimento e materiais para aquisição da cultura, separados do 1º ao 5º grau. Todos os seres da natureza enquadram-se no reino animal, vegetal e mineral. Portanto, a criança é estimulada a observar tudo o que está à sua volta e que, portanto, pertence a um dos três reinos.

O fato é que, em Montessori, o eixo do processo educativo do professor centrou-se na criança. É isso que enfatiza Goulart nas considerações finais de seu trabalho, quando afirma que “algumas das propostas da educadora, consideradas como inovadoras, reproduzem o que no século 17 Comenius valorizou e que foram ampliadas por outros teóricos, como a de que a criança apresenta características diferentes das do adulto; a de que a educação deve iniciar-se desde o nascimento; a de que a criança possui interesses e necessidades distintas das do adulto e que devem ser atendidas; que a liberdade de movimentos é essencial à aprendizagem; que a educação deve iniciar-se pelos sentidos; que o conteúdo a ser privilegiado é o das ciências naturais, incorporado na vida cotidiana dos homens”. 

Acrescento a essas considerações de Goulart um conjunto de idéias defendidas por Montessori, a saber:

- A importância de o ambiente da escola constituir-se de modo agradável e estruturado, já que as crianças têm necessidade de ordem para liberar seu potencial;

- A vitalidade das crianças a ser considerada de modo que elas possam exercer sua atividade e aprender a fazer, fazendo;

- A necessidade do respeito ao ritmo de cada criança;

- A consideração da personalidade da criança na sua totalidade;

- O desenvolvimento da capacidade perceptiva, da coordenação do corpo, da linguagem e da matemática por meio de atividades individuais e grupais;

- A criança tem necessidade não somente de alimentos e cuidados corporais, mas de que os adultos conversem com ela, a amem e criem condições de participação na vida familiar e para além de seu âmbito;

- O agrupamento de crianças não leva em conta a divisão em graus;

- A atenção para o período de 0 a 6 anos, considerado o caráter formativo, por excelência, desse período;

- O incentivo ao controle da criança, por ela própria;

- A defesa da pedagogia científica que considera as fases evolutivas do desenvolvimento;

- O respeito às relações entre as leis estabelecidas pela natureza, pela vida, pela sociedade;

- Há um intenso trabalho com os pais para que eles compreendam melhor os objetivos do sistema e funcionamento da escola montessoriana;

- O estímulo à autoconstrução, considerada a estrutura do ser humano que conta com uma força interior a partir das influências do meio e dos períodos de desenvolvimento (0 a 6 anos; 6 aos 12 anos; 12 aos 18 anos).

Entre as obras de Maria Montessori, traduzidas para 22 línguas, destacam-se: Antropologia pedagógica, A criança, A formação do homem, The discovery of the child, Ideas generales sobre mi método, Mente absorvente, Pedagogia científica e Psico-aritmética.

A influência das idéias dessa educadora é incomensurável. Mario Montessori Filho, seu neto, sintetiza a expansão dessas idéias em três direções:

- Treinamento e obras traduzidas para 22 línguas;

- Aplicação do método para escolas regulares, para excepcionais, para educação de cegos, para o combate ao analfabetismo;

- A aplicação do método para todos os estratos sociais, para a população de guetos e favelas, para classe média e alta, para escolas públicas e privadas.

Maria Montessori foi uma mulher que viveu adiante de seu tempo. Foi guerreira, corajosa, batalhadora, rompeu com os tradicionais papéis - homens e mulheres; professor-aluno. Dedicou-se por mais de 50 anos à formação do homem.

No entanto, ainda permanecem algumas idéias equivocadas sobre a pedagogia montessoriana, entre as quais: a de que se aplica apenas à educação infantil; a de que preconiza a orientação religiosa; a de que não se aplica à escola pública; a de que favorece às crianças uma liberdade excessiva; a de que se apresenta demasiadamente estruturalista e ritualística.

Na verdade, essas idéias expressam uma interpretação superficial dos fundamentos da pedagogia montessoriana que, ao contrário, estimula a imaginação, a liberdade, a criatividade, a resolução de problemas, o amor à arte, à literatura e à música. Assim, os valores defendidos por Montessori são ainda hoje universais.

É evidente que o novo paradigma exigido pela sociedade requer da educação ênfase nas trocas de pontos de vista, na interação, no diálogo, um currículo mais flexível que considere as necessidades humanas. É essa dimensão social da educação que os novos tempos devem agregar à pedagogia montessoriana para atualizá-la e conformá-la às exigências da sociedade de hoje. 

 

* Marieta Lúcia Machado Nicolau é professora de psicologia da educação e do curso de pós-graduação da Faculdade de Educação da USP, autora de A educação pré-escolar: fundamentos e didática e coordenadora de A educação artística da criança: plástica e música. 

Este artigo é parte da coleção especial Memória da Pedagogia, da revista Viver Mente & Cérebro <http://www2.uol.com.br/vivermente/>

 

Fonte: O Estado de S. Paulo, 14/12/2005.